RESENHA – ILHA DOS CACHORROS RESENHA – ILHA DOS CACHORROS
0shares 0Facebook 0Twitter 0Google+ Em tempos de intensa franquização e animações feitas exclusivamente por computador e em 3D, Wes Anderson, sempre ele, vem e... RESENHA – ILHA DOS CACHORROS

Em tempos de intensa franquização e animações feitas exclusivamente por computador e em 3D, Wes Anderson, sempre ele, vem e nos brinda com um stop-motion que é uma verdadeira obra-prima. Engana-se quem pensa que por ser uma animação com cachorros, o filme seja pueril. Muito longe disso. “Ilha dos Cachorros” traz, em suas diversas camadas, discussões bastante importantes e atuais.

A história se passa no Japão, na cidade de Megasaki, onde o prefeito Kobayashi cria uma lei para proibir os cachorros de viverem lá, e eles acabam sendo mandados para a Ilha do Lixo, abandonados à própria sorte. Entretanto, o garoto Atari, sobrinho de Kobayashi e que está sob sua guarda desde que seus pais faleceram em uma acidente, decide roubar um pequeno avião para ir até a Ilha procurar Spots, seu cão guarda-costas. Uma peculiaridade interessante é que os personagens humanos falam em japonês (e muitas vezes suas falas não são traduzidas), enquanto os cachorros se comunicam em inglês, fazendo com que tenhamos mais empatia com os bichinhos.

Vários temas são abordados na trama, como a manipulação de informações, a politicagem, a disseminação do ódio, o preconceito pelo desconhecimento. Os cães vivem, em sua maioria, em matilhas, onde prevalece a democracia, pois sempre há votação quando precisam decidir algo importante. No grupo que acompanhamos, temos desde Chief (dublado maravilhosamente por Bryan Cranston), que é um vira-lata, até cãezinhos que faziam propaganda de ração e animais domésticos. Todos tendo que lutar pela sobrevivência na inóspita ilha, em uma decisão absurda de um político corrupto e inescrupuloso. Ao longo da trama, acompanhamos também a briga de um cientista, Watanabe, que criou um soro que cura a gripe canina e a febre focinho, e assim os animais poderiam voltar a viver em Megasaki, e ainda um grupo de estudantes que fazem campanha em defesa dos bichinhos, indo de encontro aos interesses políticos de Kobayashi.

Falar da parte técnica de um filme de Wes Anderson é covardia, pois a sua assinatura é bastante evidente, e ele é um dos poucos diretores da atualidade que ainda trata o cinema como uma arte. O casting é incrível, contando com nomes que dispensam comentários, como Scarlett Johansson, Jeff Goldblum, Frances McDormand, Edward Norton, Bill Murray, Tilda Swinton, Liv Schreiber, entre outros. A exemplo de “O Fantástico Sr. Raposo”, “Ilha dos Cachorros” também é uma animação em stop-motion de encher os olhos e a mente. Estão presentes suas marcas registradas, como as imagens perfeitamente centralizadas, a atenção aos mínimos detalhes, a perfeição dos movimentos, as cenas mais contemplativas e a complexidade dos personagens. Wes Anderson não é considerado genial à toa, tanto que muitos atores consagrados aceitam inclusive cachês inferiores para poderem trabalhar com ele. Seus filmes são um deleite tanto para quem atua, quanto para quem gosta de assistir a obras que diferem da maioria dos blockbusters que sempre estão em cartaz, que custam (e rendem) rios de dinheiro. Sua obra é profunda, delicada, instigante e emocionante. “Ilha dos Cachorros”, certamente, é um dos ótimos filmes que passarão pelas telonas em 2018.

Nota: 10

Roberta Rodrigues

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